Página Branca - Fevereiro




Ela, com os olhos de vidro

Aconteceu uma vez conhecer uma mulher, uma senhora. Uma mulher como tudo como as outras. Era morena, bonita, tinha uma boa voz. Fazia o trabalho para o qual não era paga, não recebia ordenado, e vivia numa casa, debaixo duma ponte. Só não dizia o que não queria.

Desleixava-se como quem esquece o dia de ontem. Tinha os olhos verdes como a inveja que dela fazia porção! Mas os olhos que eram verdes como o musgo que lhe esbarra no coração… ela não os tinha. Ela tinha os olhos de vidro, como as garrafas das águas com gás. Sofria tanto desgosto por ela… tal destoava-a do sortido. Regelou-me assim que me fitou, senhora dos olhos de vidro. Meigo, foi o toque que ela me deu, só a mim, quando a conheci. 

Disse-me que não queria, que não precisa, de cera derretida nas campas de anteontem. O enredo mais doce que existiu já ela o conhece e não precisa de duplicação. Não para ver, mas para ouvir, cheirar e tocar. Ela disse-me que me conhecia, que me amansava, que eu me acomodava nela, fria enquanto adormecia. Mas não, não, ela não conseguia chorar. Apenas largava uns murmúrios incompreensíveis, que se estilhaçavam no chão. Só que eu nunca encontrei a chave para os desemaranhar. 

Oh, mulher dos olhos de vidro, quando eu te conheci. Um dia… um dia… olhos verdes como os teus olhos de vidro.

André Crispim



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